segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ele não acredita
em amor à primeira vista
em rimas intercaladas
em versos bobos
Em palavras cruzadas..

Meu homem de terno
preocupado com a bolsa
agasalhado no inverno
quer mulher pra lavar louça

... quero mais que morra
com o nó da própria gravata...
O bêbado andava trôpego, trocando os pés em estranha sintonia, atravessava as avenidas assoviando... perdido, tonto, torto.. manso. Sem saber pra onde ir, tanto faz o rumo que tomava. Ele tinha a certeza de que um dia morreria, e se deliciava com o paraíso alcoólico que o aguardava em alguma brecha oculta do céu. Não havia no mundo embriaguez mais doce que a sua. Uma vez tomado o primeiro copo, o bêbado tornava os olhos pra cima, abençoando o Deus que multiplicou o vinho e os belos canaviais. "Eis o mistério da fé." - sussurava deliciado.
Certo dia o bêbado flutuava pelas ruas, quando ouviu seu nome. Era uma voz conhecida que vinha de cima. Lá onde o sol tapa a lua e a lua tapa o sol, onde as estrelas se escondem e a noita debruça seu manto sobre a terra. "vem, meu amor" - soprava o vento.
E o bêbado, perdido, tonto e torto, lançou os olhos ao céu, benzeu-se três vezes, esticou os braços e beijou o asfalto por um breve estalo, encontrando ali os lábios doces de sua amada Dulcinéia.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A cidade iluminada tem casa e muros. Céus que se complementam ao concreto, como avulsos puchadinhos que se fazem nos minúsculos apartamentos.
A cidade fede a esgoto e ao perfume das nobres putas, caminhando placidamente pelas ruas onde dormem crianças sem nome.
A cidade é de cimento e pó, ônibus e caminhão, sapatos e moscas, cores e músicas, bocas e pernas.
A cidade não tem início nem fim, é um labirinto de homens cinzas e descamisados. O meio que define a tênue linha que separa vivos e mortos.
A cidade não brota, não funde, não finda. A cidade se espalha e se homogeniza na fumaça dos carros e nos rostos apáticos que caminham pela rua.
A cidade é um elo perdido entre dia e noite.
A cidade é constante e imutável, recinto dos desesperados e cárcere dos sonhadores.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Eu ia pedir pra que não parasse de escrever. Para que não deixasse calar essa voz em letra. Essas palavras que são tão minhas quanto suas. Talvez por isso me culpe tanto assim. Queria poder lhe trazer a inspiração em uma bandeja de nuvens e deixar que ela se diluisse na sua boca e se propagasse pelo corpo todo feito uma onda elétrica que não se pode conter. Mas eu não posso. E por isso venho aqui me desculpar. Suplico que me perdôe. Por não amar tanto assim. Não sonhar tanto assim. Não querer tanto assim. E fingir toda vez que eu escrevo. Eu e você sabemos que essa é uma grande mentira bem redigida. Ou nem tanto assim. Mas é disso que se vive. De mentiras. O poeta já deve ter percebido que não se pode compreender o futuro sem mentir. E da mesma forma o passado seria demasiado pesaroso e angustiante se não houvesse um fato grandioso e uma verdade exagerada nisso tudo. Mas é disso que eu me alimento, é essa mentira bem adornada que eu respiro e transpiro. É dessa poesia tosca e da minha literatura atrapalhada que eu só capaz de recordar pelo menos uma vez ao dia as grandes mentiras que eu mais amo e mais quero por perto. E você é uma delas. Minha cocaína literária. Não pare de escrever. Nem sequer pense em desistir das suas mentiras. Elas se tornaram minhas também. Deixe-me pensar que é verdade o que eu sinto. Por que mesmo sabendo que não é, eu ainda mentiria novamente e diria na frente do espelho, gritaria feito uma louca pelas ruas que é a mais exímia verdade cada palavra falsa lançada ao papel. E assim inventaria uma linda estória de amor. Uma mentira tão grande e tão bonita que não haveria alma humana capaz de negar e veracidade incontestável dos fatos. Só peço que não me obrigue a olhar nos seus olhos... nesse castanho azul e verde.. e declamar feito poesia o amor que eu não sinto. Essa mentira nossa... Ah. só mais uma linha. Me dê três palavras mentirosas e aí estará minha inspiração. Minha eterna fonte de poesia. Para o todo e sempre, meu amado poeta..