terça-feira, 29 de setembro de 2009

Nesse sopro de inspiração que assalta minha alma e rouba meus punhos sedentos pela palavra, revivo no ermo espaço da memória. Foi-se o tempo pueril de minha infância bem amada, de tardes de abril sob o sol escaldante e corridas de bicicleta pelos verdes campos de Andaluzia. E foi-se embora de mãos dadas, os sonhos tortos e belas utopias que cultivávamos à beira do riacho. Esvaiu-se pelas brechas dos meus dedos um tal encanto e surpresa pela vida, que da face curiosa, fez-se logo carranca e dos pés que alhures corriam, fez-se muleta em passo raso. Qual não foi minha alegria ao hoje despertar, volver os olhos ao teto e descobrir, repousando sob o lustre, um pequeno ponto verde que batia em frenesi as minúsculas asas em torno de si mesmo. Meu amigo louva-deus escapara misteriosamente por uma brecha do passado e agora retornava ao mundo em sutil intromissão.
- Quanto tempo, companheiro. Que saudade imensa do seu brilho verde perdido sob o vácuo dessa doce alvorada. Nasceu cria sozinha como eu e hoje vem reviver sob meu fétido leito de morte. Não poderia desejar mais doce contradição. Traz consigo um tal sentimento de nostalgia que não mais sou velho carrancudo. Aqui jaz um menino de rugas e muletas, pois tenho em mim todos os sonhos do mundo e se me faltam perspectivas futuras em breves momentos de lucidez, tenho aqui sob o lustre meu recomeço de estreitas asas e longo vôo. Nesse sopro de inspiração súbita que assalta minha alma, toma-me pelos braços amigo louva-deus e leva embora de mim tudo aquilo que não é infância. Vamos brincar mais uma vez pelos verdes campos de Andaluzia.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Entre os dedos da minha mão
Os números se abstraem
Se perdem na multidão
E, por fim, se desfazem.

Não paira sobre mim nenhuma luz
Não há solução compatível,
Nem, ao menos, um número divisível
O caminho errôneo é o que me conduz

Matei a matemática
Assassinei-a sem pudor
Pois não me disse nada a gramática
Sobre números sem divisor

Ah, maldição!
O conjunto escafedeu-se
O aluno perdeu-se
A faca atingiu sem perdão!

- Morra! Morra! -
Bradaram em desespero,
Peguem logo seus cadernos
Essa é a hora do desterro

E o sangue, impuro e macilento,
Jorrou em um golpe só
Não servem pra mim como alento
Esses números que esfaqueio sem dó

A báscara já caiu do abismo
As abscissas jaziam mortas na fogueira
As coordenadas também se juntavam às caveiras
Almas penadas de algarismos

- Aqui jaz a matemática –
Salgarei todo dia seu caixão
Para que não nasçam flores desalmadas
E borboletas sejam envenenadas
Por essa lógica de obrigação.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não pense como ofensa
a minha quietude
e pouco jeito
também os anjos não falam
e nem por isso
deixamos de escutá-los
quando de noite a brisa invade
as paredes do seu quarto
e canta doce uma prece
... quisera eu ser brisa..
... quisera eu ser reza...
meu silêncio lhe seria mais doce
e seu sono
mais leve