segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Há um grito calado
Nesse peito estufado
Voz de dentro inquieta
Que estoura na bolha distante
No contato de ventos inverossímeis
De ondas tempestuosas
de corações demasiado doces
e vozes que sussurram melosas
cantigas de ira e de amor
vindas duma brisa quente de outono
mas são apenas as folhas caídas
...anunciando as mazelas da estação

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Percebi que às vezes é necessário mudar. Mudar nem que seja por mudar. Não importa se pra pior. Nada sobrevive na sua eterna constância, nem as certezas mais precisas, nem os sonhos mais persistentes. Eu demorei pra perceber isso. As longas horas em que perdi traçando a linha cientificamente perfeita e calculadamente pensada da minha vida, foram os mais detestáveis momentos de ócio... dei-me conta num soco no estômago que as coisas se desfazem mais depressa do que se imagina, que as despedidas precedem o adeus e não há reconhecimento maior do que aquele que se põe nos olhos.
Eu descobri que o luto é a veste constante dos desesperados certeiros, dos futuristas conservadores, daqueles que guardam a perspectiva exata e imutável do amanhã. Foi nesse vazio dos espectadores que de repente me deparei com uma face conhecida, e, pela primeira vez, pela única vez depois de tantos anos, senti a boa dose de tempo e o presente eclodir em uma lufada voraz sob meu corpo inerte.
E veio nesse vento de boas novas a vontade insaciável de mudar. A crença nesse verbo que precede o ato, nem sempre leva ao fato, mas traz a compreensão que é capaz de mudar tudo.
Não falo de me reinventar ... não se trata de mudanças sutis, tampouco as drásticas. Falo das revoluções caladas que eclodem por dentro e se satisfazem numa avalanche de pensamentos. São as mudanças profundas que nos comovem por instantes e que se carrega sem saber, arrastando-as em um luto disfarçado.
Só me veio agora essa visão inovadora, a incerteza tão certa da mudança. Não conto mais os passos e não sigo mais os mapas. Fiz-me diferente do que era e, sem que ninguém visse, suspirei aliviada, pela mudança que só eu vejo e ninguém mais.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Quer reviver da mesma forma
O beijo de mil facetas
Do homem que não a ama mais

E suspira aos finais de tarde
Irrompendo em lágrimas no travesseiro
Pela perda irreversível
E a volta necessária

Mas ela perdoa, sim
Perdoa antes do delito
Porque dona Maria não agüenta aquele sorriso
E é só naqueles braços que ela deseja morar
Sedendo aos beijos sufocantes
Aos lábios indiferentes

Homem canalha é sempre o melhor
- mas se diz canalha com ternura -
E ele responde com um sorriso de meia boca
...
Sabe que a Maria volta, é só pedir
Ela não cansa de sofrer, não
É só ver ele passar que
O coração salta em suplício
E a voz estanca na garganta ...

Fica lá a Maria,
Com cara de besta olhando
...Ele tem outras
E ainda as outras das outras...
...
Mas o canalha é só dela
- suspira Maria -
Enquanto canalha o for
Murmurando debaixo dos lençóis
- minha bela, bela..