quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Os olhos de Francisco
São francos
São ciscos
Nos meus olhos
De chuva ...
A tarde se punha sem inspiração. Os arranhões do céu se camuflavam entre as nuvens escuras de Janeiro. E já é janeiro? Indagou-se, apoiando a mão no queixo. O calendário me passou pra trás, mais uma vez. Eu tinha um violão ali no canto do quarto. Uma estante mais ao lado. E muitos livros. Escrevi-os todos. Até os que não eram meus. E toda vez que eu os lia, reescrevia-os mais uma vez.
Você acredita no amor? Ela perguntava, as mãos repousadas no joelho. Tanto quanto acredito que esses livros são meus.... Mas eles são..? Meus? Não, são seus.. Estou te dando. De presente. É a sua vez de escrever.
Há algo de inspirador nos quartos vazios. Primeiro, são todos nostálgicos. Depois se tornam óbvios e voltam a ser quartos vazios. E aí acaba.
A tarde me sorria de canto de boca. Eu sorri pra ela. Aquela que não era a minha tarde. A estante imaginária tombava sobre o seu colo. E de repente ela sumia. Virava um livro de capa dura e ali cabia todo nosso amor. No meio da poeira e do ácaro. Poético.
Meu amor,
Não é o laço,
É
O

sábado, 18 de dezembro de 2010

Talvez eu devesse primeiro admitir que a atual situação climática não tem favorecido o humor das flores. Talvez por isso elas tenham se desfacelado mais rápido, uma tal força prévia do outono. Talvez não seja tão ruim assim. Talvez seja natural das flores morrer antes do tempo. Mas construir frase a frase com base em uma vaga possibilidade é apenas disfarce pra minha ausência de jardins. E que jardins breves, tão breve são deserto. Havia algo de tolo entre aquelas violetas e margaridas. Sempre tão abobalhadas, rimando seus versos às abelhas passageiras. Eram sazonais e morreram ao primeiro passar da estação. Da manhã de julho à noitinha de setembro já era musgo as cores em haste que outrora ali se gabavam da boa posição do sol e dos bem-te-vis que lhe visitavam. Eu nunca gostei das violetas e margaridas. Não é que fossem pequenas. Eram fáceis de desenhar, vulgares. Belas eram as flores sem nome, nascidas, gabavam-se, do lado de fora do canteiro. Sementes livres, flores de vento. Viraram húmus as outras todas. Ao entorno da cerca logo veio o lodo e, quando acordei de madrugada, sobressaltada por um sonho ruim – gafanhotos que saíam dos meus pés e mãos – o jardim era um pântano. Mas que desgraça, onde estão as margaridas? E as violetas? Ora, nunca aqui estiveram. Sempre foi lodo e água, sal e terra. Era só um desenho na parede da sala. Ficou a moldura . E, talvez, as sementes que o vento plantou.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

- E isso te faz bem?

- Não.

- Então por que você continua?

- Porque eu não acredito em Du Fay.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fumar é anti-social. Caminhões vagam sozinhos. Beber é coisa de bonachão, mas a cana é doce. O viciado é um estorvo, politicamente corretos cheiram cocaína. Paixão é passageira, amor é para sempre. Perdão aos traidores, rechaça às neuróticas. O complicado a gente que complica, não existe força maior. O fácil nem sempre é facil, simplificar reduz o mérito. O tempo é dinheiro e é tudo que eles não têm. As pessoas morrem para um lugar melhor, o monopólio da vingança é de Deus. O cárcere é pra bandido, e quanto miserável tem por lá. O sexo é feio na mesa de domingo e os casais se separam por falta de amor. As luzes se apagam antes de dormir, mas e as luzes lá fora, pra onde vão? Eu fumo, bebo e não amo. Não acredito em desenvolvimento sustentável e o meu tempo é ócio. Não freqüento as mesas de domingo. Não faço amor. Me prenderam enquanto eu dormia. Que feias as estrelas por dentro... Minha morena foi-se embora, vai arder no inferno, mulher lasciva. Não toco viola e o dinheiro acabou. As rosas morrem no asfalto e nascem na sola e no salto. Eu não tenho saudades da mãe. Era puta e ia pra igreja. Minha reza é uma pinga da casa, de pinga em pinga inundei a cidade. Chutei a cachorra prenha e furei o olho do gato.. só pra ver se o grotesco era poético. Dormi no meio fio, sepultando flores. Acordei na cabine da polícia. De novo, seu João? É culpa da morena... Me encarceraram por sinceridade, mas meu ódio sempre foi tão discreto... Não fui eu que matei a vadia. Já disse. Não fui eu que matei a vadia. Não fui eu. Não fui eu. Eu matei a cachorra, mas não matei a vadia. Não fui eu. Você nega? Não. Não? Não, não fui eu. Eu amava a morena. E ninguém acreditou.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Ele não reparou no céu, em todos os cinco tons daquele céu das cinco da tarde. Só eu aguardei o sol virar sombra... Mas ele não viu o que eu vi. E não viu que eu o via.
O domingo se despediu em chuva, e ele não sentiu sequer um pingo cair. Em cada pingo eu me molhei até o fim daquele dia. Mas ele não sentiu o que eu senti. E não sentiu que eu o sentia.
A chuva desceu e a terra subiu. Mas ele não sentiu o mesmo aroma que eu senti. Não sentiu que o era também nele.
Deixei entrar o vento e ele fechou as janelas. O vento voou em mim até eu voar no vento. Mas ele não voou como eu voei. Eu voei sozinha.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O eco ressoa pelas escadarias da casa. Cinco ambientes, sala, cozinha, suíte, varanda e breu. Este aí ainda repousa sob a cama. Encontro o chão frio no dedilhar estranho dos pés ao solo. Espanto. Ainda era morno esse sol de Abril..
O tempo havia sido cruel em seu desapego. Deixou os farelos do pão ao rel prazer da minha fome pré-anunciada. Mas pouco é o que se faz do amor alheio, farelo já é muito. E de tal forma venho me preenchendo de farelos que não há mais solidão.
Contemplo os azulejos azuis da cozinha e suas bordas lascadas, unidas pelo limbo - o retrato da minha face daqui há dez anos. Não há tristeza nem saudosismo nesse olhar. É pura argamassa e o desgastar do tempo. A casa permanece firme, mas com menos visitas..

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Acordei, mas meus braços permanecem estáticos, envoltos, perdidos, à procura do laço que se desfez. A sua silhueta permanece na cama, como que tingida em meu abraço, preso ainda no enlace das minhas pernas - a exata medida de um amor discreto. O quarto ainda cheira aos seus cigarros, e é como se as suas baforadas viessem, saudosas, se despedir na brisa de outono que ergue as minhas cortinas.
Pairo os olhos sob a mesa de cabeceira. O relógio ainda marca a mesma hora de sempre, a mesma partida dos ponteiros, desapegados aos 360° de sua infinita circunferência. Nem as longas horas retém por longo tempo o privilégio de serem únicas aos seus ponteiros...

domingo, 29 de agosto de 2010

Meu violão, desafinado,
deita, morto, em meu abraço
cinco cordas ao desalento,
Meus dedos fita, o nosso laço

Não toca, nem canta
Nem soa, nem ama

Meu violão, se acabou a nossa poesia...
O amargo agora é silêncio
E a vida
silencia.

terça-feira, 27 de julho de 2010

I’ll live without it…Really honestly…I’m absolutely capable of keep going on.…and on and on…´cause that’s what I’ve been doing ever since .. ever since always…It doesn’t change anything…Really honestly…I won’t miss it…Not at all…Really honestly…I won’t even think of it…Not even drunk…Not even sober…Honestly…I’ll simply keep…Keep a half of it in my pocket.. And half of it …to the dust… But I may also keep it all…´cause the more I keep it, the less I remember…the less I remember that I may live…Even if I can’t... Even if I simply can’t leave it…
Really honestly… you know my words are not even worth… I’m a liar… I’m a lawyer… I just make terrible rhymes… Verses that you keep reading… I wonder why you do that… Why do you keep it …if it hurts so… My poetry is a knife… And you keep reading it… Leave it… ´cause I’ve left it all… And the wind keeps carrying me… keeping me tight… even when I want to stop… ´cause I can’t stop the seasons… But I can’t neither leave the seasons… Let me keep autumn… let me keep it... oh, autumn… Let me blow the dead flowers of may… ´cause I couldn’t stand the smell of lavender under your pillow… I couldn’t stand the colors of the garden… I’ll just keep the dead leaves… those sadly leaves that are left under the trees… My memories of autumn… My leaves… For how long have I been living you?…

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O seu retorno
Retinge o quadro
Um visgo que rompe morto
Em um retrato abandonado

O seu retorno
Volve a janela
Venta saudoso meu jardim de vidro
Minhas violetas de poeira e canela

Seu retorno assim incerto
E tão certo meu desconcerto
E ainda sombra...tão perto

Lento ecoa o seu passo na esquina
Enquanto meu descompasso vagueia
Nos seus pés descalços
Ondas da areia
Pés de menina

Me assalta a lembrança
Um sopro por detrás
Vento leste, vagueia incerto
Me leva ao longe, por imensos areais

sexta-feira, 9 de julho de 2010

I ask myself why does it rains
Sensitive little drops
On my window that keeps open
Down a river of complains

My songs are raining
So as my gentle guitar
So as the songs I sing
Leading my voice too far

On my face and foots
I feel the drops coming down
And falling kindly on the roof
Wishing someone could pass around

It rains while I sleep
And while the clock rings
It rains on my pencil
And on the angels wings

I ask myself why does it rains
If I still feel dry that way
Even carrying an umbrella over my head
Even watching the death of the flowers of May

Why does it rains…
May I ask again?
…And he smiles to me and says
It rains…
Because It rains.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Com tuas letras.

Flâmula saudosa,
Risca no horizonte
A minha barca esquecida, que
Navega errante sob as
Costas azuis de uma
Ilha qualquer
Sopra, em canto, as velas tremulantes
Cala-se o mundo para
Ouvir o mar...

sábado, 15 de maio de 2010

Se ele viesse hoje... como quem não quer nada, tal qual um bom vivant sem rumo ou um pássaro em busca da primavera, dois rios que de repente sem entrecruzam, a pipa que voa distante no céu, a pluma que vaga perdida no ar, o encontro desajeitado dos ponteiros de um relógio, a colisão inevitável do pingo ao solo, as formigas que se esbarram e conversam em cochichos, o vento que ergue as cortinas e canta as vidraças... se assim ele viesse, ou de qualquer outro modo, inexplicável, inesperados, óbvio, determinado, incerto.. Mas se ao menos aqui ele estivesse... A felicidade seria de tal forma gigante que haveria de procurar um abrigo inviolável entre os escombros da minha timidez carcerária. E eu tola, muito tola, correria contra o vento, até o vento ser e, por fim, sumir de vez. Correria contra ele, correria dele e por ele também. Fugiria dessa ânsia instável do tanto querer, essa aversão sem sentido pelo que se ama tanto. Mas não, eu não quero que vá embora... Sou indecisa por conhecer demais o meu querer e, por isso, buscar nas brechas que não me interessam a paz de espírito pelo que não posso ter. Não se trata de eufemismo para ocultar a covardia, é que me acostumei com os becos escuros e espaços pequenos, a liberdade insana de estar aquém da liberdade e tão longe de ser livre. Sou prisioneira do meu próprio refúgio e toda vez que você aparece... nessa camisa desbotada e barba por fazer... sempre que te vejo assim, nu em espírito, livre de qualquer amarra, me vem essa vontade incontrolável de despir-me sob os holofotes e escapar da minha confortável estabilidade. É nesse preciso instante, nessa junção absurda do profano e divino, que me surpreendo em seus braços, que me entrego nua, calma, respirando seu cheiro de terra molhada... apreciando o legado da chuva após a tempestade.
Imbecil da minha parte fugir de você... Mas se ao menos soubesse o quão difícil é... vendar os próprios olhos e sentir a luz na face! Há algo que se contorce por dentro toda vez que você vem... Mas toda não vinda sua será sentida mil vezes mais. E por mil vezes mais sofrerei a sua falta, por mil vezes mais me cubro do vexame, por mil vezes mais sou livre carcerária e nesse meu querer platônico me afogo, suicida, até estar imersa em sal e água. Lágrima minha e seu gosto sob minhas vestes. Mil vezes mais apaixonada.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Mas o que me mata
não é o fardo da espera
ou o luto disfarçado dos ponteiros
de um velho relógio na sala

Me aniquila
Me sufoca
Essa sede de memória
A angústia permanente
que me deixou a saudade
sem dizer quando parte...
sem dizer quem a sacia...
sem dizer palavra...
Me abandonou ao rés do vento
E nem contou pra onde ia...

Fiquei eu na sala
ao soluço dos relógios
E esse vazio espectral
da sua falta sem retorno
da sua sombra,
sob minhas pestanas.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

sua palavra
chama
minha saudade
táctil
minha letra
pranto
seu amor
fácil

segunda-feira, 22 de março de 2010

Você bem podia vir... Ficava só um pouquinho, talvez. Tempo suficiente para pintarmos o céu de todas as cores, enquanto eu te aninhava em meus braços, entoando baixinho a canção que você mais gosta. Quero escutar os segredos do mundo ao pé do seu ouvido, segurando as suas mãos entre as minhas, sentindo o pulso de nossas batidas em sintonia.
Preciso entender a razão de tanta saudade. Lê-la nos seus olhos e boca, descendo até sua nuca, até dormirmos enlaçados - eu, sua concha; você, minha pérola. Quero a poesia implícita dos corpos, o seu tato quente sob meu corpo arfante, os seus lábios frementes nos meus. Não precisa de fazer sentido. Mesmo que seja inconsequente, irresponsável e impulsivo, mesmo que estejamos cegos, tomados pela completa ausência de lucidez. O amor não pede razões, carrega a razão em si mesmo. E por ser como é, dispensa explicações.
Eu não temo a manhã que nasce. Os dias morrem como todos nós, nossas ânsias são todas passageiras, nossos sonhos renascem... Vê na janela o sol nascendo? Sente essa luz que queima nos olhos? Não há como detê-la, meu amor. Ainda que fechássemos as cortinas, ainda que cerrássemos os olhos, o tempo acharia uma brecha entre nossos corpos e de repente nos despertaria. Então eu tomaria meu caminho para o trabalho e lhe diria até logo. Você assentiria com um sorriso e calçaria os sapatos.
Talvez eu morresse - atropelado em um lastimável acidente entre um caminhão e um ônibus - talvez sua vida também expirasse - um ataque cardíaco fulminante. De um modo ou de outro, o dia nos mataria. Mas não hoje, não nessa tardinha que passou.
O tempo também escuta preces, meu amor. E atendeu à minha, ainda eu, pecador. Foi bem ali, quando te vi passando pela porta com o seu vestido de flores azuis, quando então assoprei aos céus "Sê eterna, tardinha" ...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Perdi um não sei quê
não sei quando
..
Acho que foi a manhã que me roubou
ou a luz, escapando da ventana
..
E dou-me conta, de repente,
que a falta não é do sono
não é da calma
nem da cama
...
Amanheci,
nua e fria,
sem o sonho.
Escrever a sua ausência
na esperança
de que,
ao menos,
ocupe
as bordas
do papel.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Aos poucos vou me livrando
desses pretextos
e textos
e contextos
e refrescos
Não me importa mais a brisa
se leva e não traz
quero uma tempestade de raios
uma efusão de pingos de chuva
e tudo que fique impresso
em tinta e carvão
em lodo e borrão
qualquer marca infinita
um estrago sem revés
uma colisão de partículas
eu e tu
tu e eu
na via láctea desse universo

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Lo que no sabes
verano corto y caliente
es que sus días me han acabado
y aquí en esta tierra lejana
vivo a cantar entre las montañas
bajo la nieve que le consome
y esta placidez loca
de los días de invierno

No me haz falta el calor
ni el color de las playas
camino como diosa Dido
con los pájaros que se van
con el viento sin ventanas
y las palabras de una canción