sexta-feira, 21 de maio de 2010

Com tuas letras.

Flâmula saudosa,
Risca no horizonte
A minha barca esquecida, que
Navega errante sob as
Costas azuis de uma
Ilha qualquer
Sopra, em canto, as velas tremulantes
Cala-se o mundo para
Ouvir o mar...

sábado, 15 de maio de 2010

Se ele viesse hoje... como quem não quer nada, tal qual um bom vivant sem rumo ou um pássaro em busca da primavera, dois rios que de repente sem entrecruzam, a pipa que voa distante no céu, a pluma que vaga perdida no ar, o encontro desajeitado dos ponteiros de um relógio, a colisão inevitável do pingo ao solo, as formigas que se esbarram e conversam em cochichos, o vento que ergue as cortinas e canta as vidraças... se assim ele viesse, ou de qualquer outro modo, inexplicável, inesperados, óbvio, determinado, incerto.. Mas se ao menos aqui ele estivesse... A felicidade seria de tal forma gigante que haveria de procurar um abrigo inviolável entre os escombros da minha timidez carcerária. E eu tola, muito tola, correria contra o vento, até o vento ser e, por fim, sumir de vez. Correria contra ele, correria dele e por ele também. Fugiria dessa ânsia instável do tanto querer, essa aversão sem sentido pelo que se ama tanto. Mas não, eu não quero que vá embora... Sou indecisa por conhecer demais o meu querer e, por isso, buscar nas brechas que não me interessam a paz de espírito pelo que não posso ter. Não se trata de eufemismo para ocultar a covardia, é que me acostumei com os becos escuros e espaços pequenos, a liberdade insana de estar aquém da liberdade e tão longe de ser livre. Sou prisioneira do meu próprio refúgio e toda vez que você aparece... nessa camisa desbotada e barba por fazer... sempre que te vejo assim, nu em espírito, livre de qualquer amarra, me vem essa vontade incontrolável de despir-me sob os holofotes e escapar da minha confortável estabilidade. É nesse preciso instante, nessa junção absurda do profano e divino, que me surpreendo em seus braços, que me entrego nua, calma, respirando seu cheiro de terra molhada... apreciando o legado da chuva após a tempestade.
Imbecil da minha parte fugir de você... Mas se ao menos soubesse o quão difícil é... vendar os próprios olhos e sentir a luz na face! Há algo que se contorce por dentro toda vez que você vem... Mas toda não vinda sua será sentida mil vezes mais. E por mil vezes mais sofrerei a sua falta, por mil vezes mais me cubro do vexame, por mil vezes mais sou livre carcerária e nesse meu querer platônico me afogo, suicida, até estar imersa em sal e água. Lágrima minha e seu gosto sob minhas vestes. Mil vezes mais apaixonada.