segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O eco ressoa pelas escadarias da casa. Cinco ambientes, sala, cozinha, suíte, varanda e breu. Este aí ainda repousa sob a cama. Encontro o chão frio no dedilhar estranho dos pés ao solo. Espanto. Ainda era morno esse sol de Abril..
O tempo havia sido cruel em seu desapego. Deixou os farelos do pão ao rel prazer da minha fome pré-anunciada. Mas pouco é o que se faz do amor alheio, farelo já é muito. E de tal forma venho me preenchendo de farelos que não há mais solidão.
Contemplo os azulejos azuis da cozinha e suas bordas lascadas, unidas pelo limbo - o retrato da minha face daqui há dez anos. Não há tristeza nem saudosismo nesse olhar. É pura argamassa e o desgastar do tempo. A casa permanece firme, mas com menos visitas..

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Acordei, mas meus braços permanecem estáticos, envoltos, perdidos, à procura do laço que se desfez. A sua silhueta permanece na cama, como que tingida em meu abraço, preso ainda no enlace das minhas pernas - a exata medida de um amor discreto. O quarto ainda cheira aos seus cigarros, e é como se as suas baforadas viessem, saudosas, se despedir na brisa de outono que ergue as minhas cortinas.
Pairo os olhos sob a mesa de cabeceira. O relógio ainda marca a mesma hora de sempre, a mesma partida dos ponteiros, desapegados aos 360° de sua infinita circunferência. Nem as longas horas retém por longo tempo o privilégio de serem únicas aos seus ponteiros...