sábado, 1 de junho de 2013

Eu ouvi dizer que você deixou de ser nostálgica. Fiquei com pena. Ah, logo você, que gostava tanto de lembrar ... Essa sua ruptura não me convém - a mim, sua memória. Eu sei, como suas lembranças eu sou, que você desacortina dramas, tece estórias inacabadas. E todos os dias. E que você as repete. Sempre. Um carma muito poético. Mas eu acho graça na sua tortura. Não, não é vontade de machucar. A graça é que todos os seus sentidos nostálgicos voltam-se pra um mesmo ponto. Não é que ele seja o ponto - aí sim seria trágico. O ponto é que você sempre se perde repetindo aquilo. É tão lindo e heróico. Só bravas gladiadoras carregariam sorridentes esse encosto de volver sempre à estaca nula dos gestos repetidos. Então, de um dia pro outro, você se reconhece desequilibrada. Não foi sua memória que disse isso, deve ser uma revolta estomacal. Como se tomar o mesmo caminho várias vezes fosse não tomar caminho algum. Aí você decide me deixar. Sem longas despedidas. Sem ressacas. Sem desculpas. Logo eu, a memória que lhe escreve, essa que nunca lhe suplicou sentido. Aí você ri de mim. Desdenha. Achando que eu não volto. Mas a sua abstinência me escreve. Todos os dias. Nem que seja, ao menos, nas bordas de papel. Aquele dia de vento. Você escreve sempre o mesmo dia. E nem sabia disso. Eu, que sou memória, te digo - é aquele dia de vento. Não ventou nunca mais assim.