domingo, 29 de setembro de 2013

O quão longe andaria essa louca? E agora os seus pés - insanos também - só andam se for por ele. Estão convencidos de qualquer coisa. Milhas e milhas de persuasão. Mas será que ela, à parte dos seus pés, conhece tantas milhas assim? ... Espanto - Ela não sabe. Ela não faz idéia de quantas vidas lhes custam pra chegar até lá, e por motivo qualquer sentiu cada milha caminhada ao revés. O caminho de volta, soube desde a sua partida, devia ser refeito por ordem do destino. E devia ser perfeito. Mais uma vez. É porque ela ama. Não se sabe bem o quê. É como uma dívida que contraiu com o mundo, pois veja - este lhe deu a razão. Ela lhe esvaziou por inteiro. Agora chamam-na inadimplente. Persegue um sentido, talvez, nessa loucura de começar com passos largos, embora aos poucos esses comecem a se apequenar. Ficam assim de tal sorte que já não os pode conter por mais de alguns milímetros. Às vezes são imensos, uns saltos sobre telhados. Mas então recuam, descrentes da própria força. É que quando seus pés recobram-se da humanidade que os fez, torna-se mais lenta a marcha. Estão celebrando solas, sem as tê-las mais. As solas são os deuses dos pés para todo fenômeno de tortura do chão sobre os dedos. Eu sei bem amar - diz. Ele seria as razões dos meus passos, se ao menos eu soubesse pra onde vou. E quem é ele. Estou em débito com os sentidos. Mas isso é bom porque os calcanhares doem menos. E nem sei se os tenho. Ou se talvez por andarem constantes, sou eu parte deles. Se são eles eu inteira. Também não sei que milhas são essas. Pra onde me levam. Olha então ao redor, os cabelos desgrenhados caindo em mexas sob os olhos, suspira baixinho - eles querem me iludir, me convencer que eu não amo. E recupera logo depois os olhos fanáticos para acrescentar - Mas eu aprendi as talhas das árvores. Eu distribuí pegadas onde ninguém há de pisar. Eu pendurei bandeiras nos postes. E desde aquele dia, minha despedida tão triste, eu amarrei a ponta dos meus calcanhares com uma agulha de ponta fina ao ponto onde cá estou. Foi pra não esquecer o caminho, embora o ingrato tenha me esquecido. O caminho, esse estranho ao esforço. Passou como eu disse antes, é só distorcer esse fio e deixar que ele me guie, me empurre, me trague como uma avalanche ao ponto de encontro. E agora nesse desembrulho, nesse desenrolar de lã, desaba. Não encontra. Estão ali todos os sinais, os calcanhares reunidos enfim ao final da linha. Vê, ali, já não sabe desde quando, o nó que a atava à chave da porta. Mas não há ninguém em casa. Deu-se conta de um emaranhado de fios apenas. Sujos, emendados, irreconhecíveis à amarra primeira. Mas não há ninguém - espanta-se. E o diz várias vezes para si. Sim, porque é uma castigada que cumpre a sua dívida. Ela ri por falta de lágrimas; as esqueceu na ânsia enlouquecida do reencontro. E nem a frustração a compreende mais. Por isso ri. Agora eu a vejo pôr-se em pé. Mas mal chegou e vai embora, louca? Foi a travessia que me cansou - seus olhos respondem - estão esses calcanhares alforriados e o mundo não me culpa mais. Agora entre, tome um café na minha ausência. A cozinha é bem à esquerda e a cama fica no andar de cima. Cabem dois, mas um só está bem também. Virava de costas, quando pediu - Fica com a chave. Insiste. Abre a mão, que é sua. Pronto. Sim, entrego porque acabo de lembrar - a minha não é esta. Esse nó não fui eu quem fiz... Mas não era a mesma linha, pergunto. Era! Era! - ela grita lá de longe - Era a mesma linha, sim. Só que agora meus calcanhares não a querem mais e dizem que eu devo partir. Aí ela foi. Fiquei com o carretel em mãos. Ela, ali, a pipa que me foge. Mais uma vez não me reconhece o amor. Não reconhece, amor, a nossa casa.

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