sexta-feira, 11 de abril de 2014

Eu não vou dormir hoje sem escrever. Meu Deus. Se eu não escrever eu morro. Tira de mim qualquer coisa, azeitona pela metade, pedaço de manjericão no dente, moscas emparedadas nas quinas das janelas, lata de creme de leite aberta na geladeira, mancha de sangue menstruado no colchão, pacotes rasgados na minha bolsa, poeira na lâmpada da sala, ferrugem nos ladrilhos da piscina, remendo no jeans da minha calça. Faz-me protagonista de qualquer coisa, põe-me sob os holofotes de um cidio. Homicídio. Infanticídio. Suicídio. Hoje eu durmo sem culpa se o Senhor assobiar umas palavras ao pé do meu ouvido. Uns gemidos de gozo. Uns latidos, uns grunhidos, que seja. Dá-me a cena de uma freira esquiva a contar suas lamúrias pecaminosas em um confessionário de cidade pequena. Ou dá-me a vista pequena de uma cidade grande e eu vejo as beatas arriarem suas saias sob os muros da igreja e gozarem feito cachorras no cio, enquanto gritam moralismos aos seus maridos desorientados. Estou entediada de mim. Morta em mim. Mata-me de qualquer coisa, de batida de van, de pedregulho sobre a cabeça, de homicídio nos trilhos do metrô, de bala perdida na Central do Brasil, de fome, de PM, mas não me mata dessa culpa. Dessa culpa de ter sentidos e nada a escrever enquanto eu respiro no mundo. E ter que abaixar-me de cócoras para recolher cada peça de roupa deixada em frangalhos pelos corredores. Quando eu tinha pele, despi-me. E vieram esses carniceiros, seus filhos, gorgorejando sangue ao topo dos eucaliptos, a se atirarem com os bicos empenhados num voo vertical que veio-me direto no olho direito. Eles comiam a minha carne atirando lascas para cima e voltando a mastigá-las como pedintes no final do dia, a rodar os seus limões diante dos carros. Sobraram-me as roupas. Assim que lhe suplico banhada em vácuo, meu lenço a vertir-me sem mim - ó Deus, dá-me lá um varal, se tem misericórdia pela filha sua, que esses meus trapos merecem descanso. Depois, porque está em dívida comigo, dá-me também as cordas do varal. Quero um nó canhoto e invertido a cercar-me o pescoço. Hoje eu escrevo. Ou eu morro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário